Quinze Anos
Atualizado: 8 de out.
Oi gente! Aqui vai o segundo conto, protagonizando Larissa, a amiga de Claudinha, e assim temos já fechado o primeiro núcleo, o das adolescentes baladeiras da Zona Sul do RJ. Em breve farei uma aba detalhando os núcleos criados.
Tal como Claudinha, Larissa é criada por mãe solo, dona Inês, bem ligada e atenta aos filhos. Larissa tem as vivências e os conflitos normais da adolescência, incluídos desentendimentos ocasionais com sua mãe. Vamos deixar a imaginação nos levar para uma manhã no apartamento onde vive Larissa, que está pensativa.
- Que cara é essa, menina? Está pensando em quê?
- Nada.
A resposta curta foi suficiente, pois Larissa não sabia dizer em que estava pensando, e talvez não estivesse pensando em nada mesmo. Ela costumava ter aqueles momentos de introspecção. A mãe franziu o cenho, dando a entender que não se assustava com aquelas mudanças de humor da filha adolescente.

- Se quiser falar comigo, chama.
Dona Inês era assim mesmo, prática. Fazia o que tinha que fazer para cuidar da filha de 15 anos recém-completados, e do irmão Marcelo de 13, sem marido havia tempos. Não era ríspida, mas também não se deixava impressionar por certas teimosias e figurações, e lançava mão do que fosse necessário para manter sua autoridade. Larissa sabia disso.
Sentada na cama, abraçou as pernas e tentou afastar o mau humor. Alguma coisa a estava incomodando. Tentou pensar em coisas agradáveis, e puxou da memória sua festa de 15 anos.

Conseguiu sorrir revivendo lances da festa, tinha gente que achava antigo aquilo de festa de 15 anos, mas ela gostava. Porque para ela, tinha um significado especial. Era a idade adulta da adolescência. Ela ainda era uma adolescente, mas a adolescência se dividia em duas, o antes e o depois dos 15 anos. Dona Inês não podia mais tratá-la como se ela tivesse 14 anos, e Larissa via isso como líquido e certo. Aquilo lhe deu uma sensação de bem-estar, mas no fundo do pensamento ainda havia alguma coisa cutucando-a...
Pensou em ligar para Claudinha, bater um papo. Podiam falar sobre as respectivas mães, um assunto que sempre voltava. Achavam as mães muito “peguentas”. Será que eram assim porque criavam filhos sozinhas? Acabou desistindo de telefonar. A mãe apareceu na porta do quarto.
- Vem jantar.
Na manhã seguinte, na escola, já estava conversando animadamente com as colegas no intervalo entre uma aula e outra. Pulavam de assunto tão rápido que ela mal conseguia acompanhar, até que sua atenção foi despertada por um comentário de Valentina, uma colega da série passada.

- Ai, se minha mãe descobrir que eu fui lá, vai me encher de porrada!
Algumas colegas riram, outras fizeram uma expressão séria, como se imaginassem a si próprias naquela situação. Larissa sabia que “porrada”, no linguajar dos jovens, podia significar muitas coisas. Talvez um esporro bem dado. Mas também apanhar mesmo. Não, as colegas não apanhavam surras brutais, como gente ignorante, mas volta e meia escutava-as comentando que levaram “uns tapas”, geralmente entre risos, dando a entender que a diversão compensava o castigo.
O assunto voou para outras áreas, e as colegas começaram a falar sobre os recursos de seus novos celulares. Larissa ficou calada, agora estava pensando. Também “uns tapas” podiam significar muita coisa no linguajar dos jovens. Havia mães que sentavam uns tapas na hora da raiva, mas também havia mães que batiam meticulosamente no bumbum, como fazia dona Inês. Aquilo incomodava Larissa, a sensação de impotência quando a mãe a imobilizava no colo e carimbava suas nádegas, uma vez após outra, não em tom de raiva, mas de julgamento.
Procurou pensamentos que a agradassem. Sim, aquilo acontecia, mas queria mudar o tempo do verbo e afirmar que aquilo acontecera. Era coisa de criança, um percalço natural da idade, né? Agora ela havia feito quinze anos, e tinha a impressão de que a mãe já a estava tratando diferente. Mirou a colega Valentina, que estava rindo de alguma coisa. Valentina tinha 14 anos, o ar ainda meio infantil nas bochechas rosadas, e experimentou uma confortante sensação de superioridade. Valentina ainda podia apanhar, era normal.
Como será que Valentina apanhava? Não sabia, mas quis imaginar um roteiro conhecido. Valentina de bruços, apanhando no bumbum, que aos 14 anos já era farto e redondo, mas ainda sujeito às prerrogativas dos adultos.


Súbito, compreendeu o que a incomodava tanto: era aquele direito implícito que sua mãe tinha sobre seu corpo para castiga-la, mas ainda assim batendo de um jeito programado, que não podia ser conceituada como agressão, de um modo até... maternal. Por um instante, a palavra provocou-lhe um arrepio.
Mas à noite, Larissa sentiu-se plena quando dona Inês, após um revirar de olhos, consentiu que fosse à festa naquele clube aonde um ano antes ela havia vetado que fosse, uma festa de gente mais velha em um clube meio fora de mão.
- Quem vai levar vocês lá?
- O Zá Mauro, ele vai de carro. Eu vou com a Claudinha e a Renata.
- Leva e traz?
- Traz sim – Respondeu Larissa com convicção, mesmo sem ter certeza.
- Uma hora em casa!
- Ih, talvez eu demore mais um pouco – Discordou a adolescente – Pode ser que o Zé Mauro fique até mais, eu estou dependendo de carona...
- Duas horas em casa!

Assim ficou acordado. Larissa teve vontade de dar um salto em comemoração, mas conteve-se. Aquilo não era um prêmio, era o reconhecimento normal de que já estava grande, pensou. Por dentro, estava radiante, e a animação só cresceu com o passar das horas. Despediu-se da mãe, e trocou um olhar de cumplicidade com a amiga Claudinha antes de entrar no carro cheio. A conversa correu animada enquanto o carro embicava por uns caminhos que Larissa conhecia pouco, até chegar a um portão que se abria para uma vasta área, de onde já se escutava a música.
O clube era legal, mas conforme Larissa já sabia, era para gente mais velha, aí de uns vinte e tantos anos. Notou poucos adolescentes, mas ainda assim estava animada por vir. A bebida era liberada, e tomou uns tragos com Claudinha, aumentando as risadas. Mas logo um certo cansaço se insinuou.

- Aqui tá chato, tem outro lugar mais legal aí do lado, vamos lá?
O convite viera de Renata, amiga de 19 anos de Zé Mauro. Larissa hesitou um segundo, mas o olhar de Claudinha lhe deu ânimo.
- Vamos!
Saíram, e após caminhar por um atalho mal iluminado, entraram em um portão menor, de onde se ouviam umas músicas que já puxavam para o funk. Com a cabeça sob o efeito do álcool ingerido, Larissa curtiu. Nenhum porteiro, a entrada era liberada, ou talvez o fosse além de tantas horas. O ambiente era mais despojado do que aquele do clube, e havia umas barraquinhas que vendiam bebidas. Larissa gostou, era diferente, ela queria descobrir.

Mais bebidas compradas a baixo preço, sem que a idade fosse verificada, e a dupla Larissa e Claudinha já estava aprendendo aquelas coreografias de funk, que a adolescente sempre achara divertidas, embora evitasse afirmá-lo. A mãe abominava, e algumas colegas também depreciavam. Notou um garoto se aproximando, tinha uns olhos amarelos, cabelo com luzes e brinco na orelha. Não demorou a dançar com ele, sentindo suas mãos a apalpar-lhe a cintura enquanto rodopiava até tocar o bumbum no chão de cimento, com bastante falta de jeito, mas nem ligava. O olhar cúmplice de Claudinha, dançando com outro garoto ao lado, transmitia-lhe força.
Quando retornou ao clube, não sabia que horas eram, e sequer tinha o nome do garoto com quem dançara. Mas estava exultante com sua nova liberdade. Tonta, não conseguiu mais dançar, e então embarcaram no carro de Zé Mauro em meio a gracejos ditos com voz de álcool. Teve a impressão de que havia mais pessoas no carro do que na vinda, pois tinha gente sentada no colo de outro, mas quem ligava? Conforme ela previra, Zé Mauro partira bem mais tarde do que a mãe contava.
Ao abrir a porta do apartamento, viu o relógio marcando quatro horas, e dona Inês de camisola e cara amarrada. Nem tirou o sorriso da cara, aquilo era uma coisa normal para sua nova vida de menina crescida, julgou. Mas não sabia dizer se era efeito da convicção, ou da bebida.
- Isso são horas?
- Tava legal lá! – Limitou-se Larissa a responder.
- Amanhã a gente conversa.
A mãe estava estranhamente calma. Larissa não se espantou: dona Inês era prática, e sabia que não seria proveitoso conversar com ela àquela hora, com ela bêbada. Mas não estava com medo da conversa do dia seguinte. Agora só queria dormir e lembrar dos bons momentos.

Dormiu longamente, mas ao acordar sentiu um gosto ruim na boca, e alguma coisa ribombando na cabeça. Foi ao banheiro e lavou o rosto duas vezes, obtendo algum alívio. Dirigiu-se à mesa do café e cruzou com a mãe, que não falou nada, mas a acompanhava com um olhar vigilante. Aquele olhar não a abandonou enquanto tomava café, e Larissa sabia que já o conhecia, mas fez força para acreditar que daquela vez seria diferente. Após o café, procurou o que fazer, sentindo o mal estar crescer. Resolveu sair para dar uma volta, mas a mãe barrou-a na porta.
- Agora vamos conversar.
Larissa conhecia aquele tom fingidamente calmo da mãe, e sabia o que viria em seguida, mas não sentiu medo, ao menos não naquele momento. Soltou um suspiro, e cruzou os braços.
- Mãe, eu já falei, tava bom lá, eu me diverti, só cheguei um pouco tarde...
- Eu confiei em você, e logo na primeira, você me decepcionou! – Disparou a mãe, agora em tom mais severo.
Larissa soltou outro suspiro, descruzou os braços, mas não teve tempo de dizer mais nada. A mãe sacou o cinto cuidadosamente dobrado duas vezes, até ficar pequeno que quase se confundia com um chinelo.

- Mãe... tô grande! Fiz quinze anos, tive minha festa e tal, você vai continuar a ficar me batendo?
- VOU! E já que você diz que está grande, vai apanhar feito mocinha! Vai para o quarto agora, e deita na cama!
O mundo que Larissa havia construído pareceu se estilhaçar. Então ela ainda podia apanhar? A mãe sabia pegá-la pelas palavras, e aquele discurso de apanhar feito mocinha pareceu-lhe perversamente irônico.
- Ai não, mãe, não – Protestou, mas a voz já saiu mais fina.
- PARA O QUARTO AGORA!
Larissa rumou para o quarto pisando dura e com ar de desconsolo, como se a ordem de ir para o quarto fosse tão-somente de ir para o quarto.
- Deita na cama de bunda para cima, que você vai apanhar!
O comando veio no tom firme e sem raiva que Larissa bem conhecia, e sabia que quando escutava aquele tom, não havia escapatória. Ainda assim tentou resistir, mas a voz saiu chorosa.
- Não mãe, eu não quero apanhar, isso é ridículo...
- DEITA!

Larissa não disse mais nada, e ficou parada, olhos no chão. A mãe antecipou-se, e agarrou-a pelo braço.
- Ai mãe, larga...
Mas a resistência agora era instintiva. Larissa percebeu que a mãe queria curvá-la, e firmou o corpo. Seguiu-se breve luta.
-AI MÃE, PARA...
Larissa perdeu o equilíbrio, e quando caiu, percebeu que estava sobre as pernas da mãe, que se sentara na beirada da cama. Tentou virar o corpo, mas sentiu a dor no braço torcido para trás que a mãe segurava. Pousou o outro braço sobre a colcha da cama e tentou erguer o tronco, mas a mãe agora segurava suas costas. Ainda houve alguma luta, com Larissa debatendo-se e tamborilando os pés no chão, mas a adolescente estava bem presa, e a mãe parecia não ter pressa.
Foi quando sentiu os dedos da mãe entrando pelo cós da calça, e puxando-a para baixo. Larissa suspirou, como que anunciando sua rendição. Pareceu-lhe que a mãe ainda disse alguma coisa, mas não escutou. Um ligeiro arrepio propagou-se ao redor de seu umbigo enquanto aguardava a primeira cintada, que logo foi desferida.

- LÉPT!
As primeiras cintadas provocaram mais susto do que dor. O bumbum estava esquentando ainda. Mas logo surgiu a dor que não tinha tempo de se esvanecer antes da cintada seguinte. LÉPT! LÉPT! LÉPT! LÉPT! LÉPT! Larissa apertou os lábios e contorceu o corpo. Sabia que não ia demorar até que a língua se soltasse e ela começasse a dizer o que não queria.


- LÉPT! Ai mãe LÉPT! Ai LÉPT! Para LÉPT! Por favor LÉPT! Tá doen LÉPT! Tá doendo LÉPT! Aiii
Larissa estava ofegante quando a mãe a ergueu de seu colo, e ela imediatamente desabou sobre a cama, a cabeça enterrada entre as cobertas, o suor da testa se misturando às lágrimas. Ainda escutou a sentença final da mãe:
- E nem pense em festa até o fim do mês!
O silêncio se fez sobre o quarto, e seus pensamentos desencontrados pareciam fazer eco. Sentia-se desconcertada ao constatar que fazer quinze anos não mudara nada, mas ao mesmo tempo experimentava um estranho alívio ao ver-se de volta à rotina que já conhecia. Sentia raiva da mãe, e no instante seguinte experimentava um estranho alívio ao constatar como a mãe tinha segurança em tudo que fazia, sabia a hora certa de repreendê-la, sabia como deixa-la sem escapatória, sabia a parte do corpo onde bater.

Larissa levantou-se, e foi até o espelho contemplar o estrago. Viu o traseiro coberto por um vermelhão, mas sabia que os vergões logo apareceriam. Levou bastante tempo até ter coragem de sair do quarto, e procurou mostrar indiferença, mas sabia que ainda tinha a cara amassada. O irmão olhou para ela com expressão entre curiosa e preocupada.
- Está tudo bem?
- Não enche!
Mas logo se arrependeu da resposta ríspida, e corrigiu:
- Está tudo bem, sim, se preocupa não.
Dona Inês estava agindo como sempre, e aquilo fez o dia parecer quase normal. Em determinado momento a mãe se dirigiu a ela, e sem alarde, comandou:
- Vamos lá para o quarto que eu quero ver isso!
- Precisa não!
A resposta saiu antes do pensamento, mas dona Inês era firme, quase burocrática.
- Não precisa bancar a valente!
Larissa cedeu, e foi até o quarto, onde se deitou de bruços na cama. A mãe baixou suas calças e pôs-se a borrifar um creme sobre suas nádegas marcadas, já sem o vermelhão, mas com os vergões emergindo em marcas quadradas onde o cinto atingira. A adolescente experimentou sentimentos contraditórios. A dor diminuía, mas o procedimento cuidadoso da mãe parecia de alguma maneira validar a surra que a mãe dera pouco antes, como se fossem as duas metades de um gesto maternal. Larissa teve a impressão de que seu corpo, de alguma maneira, não lhe pertencia inteiramente, pois a mãe tinha prerrogativas sobre ele, e aquilo lhe proporcionou um alívio que ela fez força para apagar de sua mente.

A mãe se retirou, e Larissa permaneceu no quarto sentindo-se mais tranquila, na bonança que segue uma tempestade, o frio do creme ainda na pele absorvendo o ardor. “É, não é ainda dessa vez que vou para de apanhar”, pensou. “Será quando eu fizer dezesseis anos?”
Não. A amiga Claudinha tinha dezesseis, e Larissa tinha sérios indícios de que ela ainda apanhava. O desconsolo misturou-se a um conformismo gaiato e a uma sensação de desforra e alívio por não perceber-se inferiorizada.


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