top of page

Castigo Escolar na China

arnaldomaq
há 2 dias
9 min de leitura

A China anda na moda, tal como os países do Extremo Oriente de modo geral, elogiados por seu avanço econômico, disciplina e valorização do estudo. O que se fala menos é que tudo isso é conseguido à custa de métodos que nós, ocidentais, acharíamos inaceitáveis. Recentemente um comentarista enviou-me essa reportagem (tradução mais abaixo) publicada no portal chinês de notícias Sina (新浪), em 14 de novembro de 2006, com informações do jornal Western Business Daily, acerca de um castigo escolar que tem sido praticado na China. É antiga, mas não há informação de que a situação tenha mudado, e na verdade ninguém sabe direito o que acontece na China, um país economicamente aberto mas politicamente fechado, onde existem hábitos culturais diferentes dos nossos.

Um jornalista recebeu a informação de que alunos de uma escola localizada em uma área central de uma grande cidade da China eram submetidos ao castigo (note: não é algum interiorzão atrasad). De acordo com a informação que ele obtivera, a regra seria: quem chegasse atrasado passaria uma semana de pé.


Ele foi até a escola e entrevistou tanto os alunos quanto a professora responsável por tal regra.


Um dos alunos com quem o jornalista conversou, identificado na matéria pelo nome fictício Xiao Qiang, disse ter recebido o castigo por chegar dez minutos atrasado, depois de já ter se atrasado mais de três vezes. 

Ele alegou que a professora mandou-o assistir todas as aulas em pé, começando pela primeira aula da manhã, podendo sentar-se para descansar apenas durante intervalos de 10 minutos entre os períodos de aula.

A matéria não informa, mas descobri que na China, o período de aula costuma durar de 40 a 45 minutos, com intervalos de 10 minutos, e são de 7 a 9 aulas por dia.

O menino entrevistado afirmou que, já no terceiro período, ele estava com as pernas dormentes, sentia-se tonto, e tentava aliviar encostando-se na parede.

A reportagem também registra a reclamação dele sobre a dificuldade de enxergar o quadro e copiar a matéria enquanto em pé; ou seja, fica implícito que o estudante, mesmo castigado, ainda tinha o dever de participar da aula.

O jornalista soube também do caso de uma aluna que teria sido obrigada a ficar três dias em pé. A aluna em questão se recusou a dar entrevista, alegando que não queria reviver o caso.

O jornalista procurou diretamente a professora, que deu algumas declarações. Do ponto de vista dela:

  • Ela admitiu haver criado a regra do castigo em pé por atraso; afirmou que, naquele mesmo dia da entrevista, dois alunos haviam recebido o castigo; e chamou a responsabilidade para si, afirmando que a direção da escola não estava ciente.


  • Em relação à alegação de que a regra era que o castigo durasse uma semana, ela respondeu que não era bem assim.


  • E sobre a aluna que teria ficado três dias em pé, a professora contou: a aluna havia se atrasado por mais de uma hora, e a professora perguntou como lidar com aquilo; a aluna teria se prontificado a passar o semestre inteiro (!) em pé, ao que a professora deu início ao castigo, mas o interrompeu no terceiro dia.

Mesmo na reportagem completa, há questões que ficam em aberto:

  • A dinâmica do castigo da aluna foi a mesma que a aplicada ao menino identificado como Xiao Qiang, incluindo os intervalos de descanso entre os períodos de aula?


  • Os alunos dizem que a aluna castigada por três dias ficou em pé até não aguentar mais; a professora, por outro lado, dá a entender que decidiu por conta própria encerrar o castigo.


  • A interrupção parece ter sido no meio do terceiro dia; portanto, não fica claro quanto tempo a aluna de fato ficou em pé naquele dia, pois pode não ter sido até o término das aulas.


  • Por último, mas não menos curioso: a professora afirmou que teria sido a própria aluna a propor que o castigo fosse passar o semestre inteiro de pé. A reportagem não nos permite concluir se a aluna realmente fez essa proposição, nem por qual motivo. Supondo que não tenha sido uma distorção ou invenção da professora, só nos resta especular: teria a aluna proposto isso como um ato de rebeldia? Ou teria sido por vergonha, como uma tentativa de se redimir propondo um castigo exagerado?

Enfim, segue a matéria.

——————

Tradução da matéria original

——————


Aluna chega atrasada quatro vezes e é punida com três dias seguidos em pé na sala de aula

A professora diz que deixou a estudante se sentar no terceiro dia. Colegas afirmam que ela ficou de pé até não aguentar mais.

14.nov.2006, 9h32 - Fonte: Xibu Shangbao (Jornal Comercial do Oeste), via China Ningbo Net / Sina

Por chegar atrasada à escola, uma aluna foi obrigada pela professora responsável por sua turma a assistir às aulas em pé, no fundo da sala, durante três dias seguidos. Segundo estudantes, o caso aconteceu na turma 8 do 1º ano da Escola de Ensino Médio nº 27 de Lanzhou, no noroeste da China.

Ela não foi a única aluna da turma punida por atraso. Muitos pais disseram ter ficado revoltados ao saber do castigo imposto aos filhos e não entendem a medida. Ouvida pela reportagem na segunda-feira (13), a professora Wang Haixia reconheceu que esse tipo de punição é inadequado. A escola afirmou que vai tratar o caso com rigor.

Imagem ilustrativa
Imagem ilustrativa

A regra: mais de três atrasos, uma semana em pé

A reportagem foi à escola no horário do almoço de segunda-feira. Nos corredores, alunos da turma contaram que a professora Wang Haixia deu a cada estudante o direito a três atrasos. Quem passa desse limite fica uma semana em pé. A regra vale desde o início do semestre, e mais de dez alunos da turma já foram punidos.

Imagem ilustrativa
Imagem ilustrativa

De acordo com os colegas, pouco depois do início das aulas, uma aluna que já tinha esgotado os três atrasos chegou uma hora atrasada pela quarta vez. Ela foi obrigada a ficar em pé por três dias e só parou quando não teve mais forças.

Imagem ilustrativa
Imagem ilustrativa

Procurada, a estudante não quis falar do assunto. “Já faz muito tempo e minha família já conversou com a professora, então prefiro não tocar mais nisso”, disse antes de se afastar.

“Minhas pernas ficaram tão dormentes que eu mal conseguia ficar de pé”

Xiao Qiang (nome fictício), que também já foi punido pela professora, contou que um dia chegou dez minutos atrasado. Como já tinha passado do limite de três atrasos, Wang mandou que ele assistisse a todas as aulas em pé. Ele só podia se sentar na carteira para descansar durante os intervalos de dez minutos.

Ele ficou de pé desde a primeira aula da manhã. Na terceira aula, as pernas já estavam tão dormentes que ele mal conseguia se manter em pé, e se sentia zonzo. A única saída era se encostar na parede para descansar um pouco.

Segundo o estudante, fazer anotações em pé era muito difícil, e o cansaço atrapalhava o aprendizado. Do fundo da sala, ele também tinha dificuldade para enxergar o quadro. Depois de um dia inteiro em pé, o que ficou foi “dor nas costas e nas pernas”.

Professora: “Fui eu quem criou a regra”

A reportagem procurou a professora Wang Haixia. Leia a seguir os principais trechos da conversa.

Reportagem — Os alunos dizem que a senhora determinou que quem se atrasar mais de três vezes têm de ficar de pé. Isso procede?

Wang Haixia — Alunos de fato já ficaram de pé na turma. Essa é uma regra que eu criei para a turma, e a escola não tinha conhecimento.

Reportagem — Por quanto tempo a senhora costuma deixar os alunos de pé? Eles dizem que é uma semana inteira.

Wang — Não é bem assim.

Reportagem — Uma aluna chegou a ficar três dias em pé?

Wang — Uma vez, uma aluna chegou mais de uma hora atrasada, e eu perguntei a ela como deveríamos resolver a situação. Ela disse que, por vontade própria, assistiria às aulas em pé durante o semestre inteiro, mas no terceiro dia eu deixei que se sentasse. Ver um aluno assistindo à aula em pé também me incomoda.

Reportagem — Quantos alunos já foram punidos dessa forma?

Wang — Desde o início do semestre, quatro alunos ficaram de pé. Hoje de manhã, outros dois chegaram atrasados, e eu não tive alternativa a não ser fazê-los assistir à aula em pé.

Escola diz que não tolera castigo físico

O diretor da Escola nº 27, Jiao Xianqing, disse à reportagem que a professora talvez tenha recorrido a essa medida extrema por estar preocupada com a segurança dos alunos que se atrasam no caminho até a escola. Segundo ele, foi um caso isolado. A escola não incentiva de forma alguma que professores deixem alunos atrasados de pé, o que, para ele, é uma forma disfarçada de castigo físico.

Jiao afirmou que pais e alunos com reclamações devem procurar a direção da escola. Professores que descumprirem as normas da instituição serão punidos de acordo com o regimento interno. Quem aplicar castigo físico será advertido e passará por orientação, e a escola não vai compactuar com métodos pedagógicos desse tipo.

A reportagem também levou o caso à Primeira Divisão de Educação Básica da Secretaria Municipal de Educação de Lanzhou, na segunda-feira. Um funcionário registrou a denúncia em detalhes e disse que vai encaminhá-la aos superiores o quanto antes. Segundo ele, se a denúncia for confirmada, a secretaria vai exigir que a escola advirta e oriente a professora, e vai agir para impedir que casos assim voltem a acontecer.

——————

Notas de tradução

——————

  1. Ensino médio (高中). Na China, a escola se divide em 6 anos de primário, 3 de secundário inferior e 3 de secundário superior (高中). Só os nove primeiros anos são obrigatórios. O 高中 equivale ao ensino médio brasileiro: tem a mesma duração e é a última etapa antes da universidade.

  2. Idade dos alunos (高一). 高一 é o 1º ano do 高中. Os alunos têm em geral 15 ou 16 anos, a mesma idade do 1º ano do ensino médio no Brasil.

  3. Turma e professora (高一八班, 班主任). “Turma 8” é a oitava turma do 1º ano. O 班主任 é o professor que, além de dar sua matéria, cuida da disciplina e das regras da turma. Não existe cargo exatamente igual no Brasil, por isso usei “professora responsável pela turma”.

  4. Castigo físico disfarçado (变相体罚). É um termo legal chinês para punições sem agressão que causam sofrimento físico, como ficar muito tempo de pé. A legislação de proteção de menores em vigor na época já proibia essas punições.

  5. Duração dos períodos em pé (estimativa). O texto original não diz quanto tempo os alunos ficavam de pé. A estimativa abaixo usa o horário típico das escolas de ensino médio chinesas na época: aulas de 40 a 45 minutos, intervalos de 10 minutos (como o texto menciona) e de 7 a 9 aulas por dia.

    • Xiao Qiang: até a terceira aula, quando disse que as pernas ficaram dormentes, foram cerca de 2 horas de pé. No dia inteiro, algo entre 5 e 6 horas.

    • A aluna: em três dias, algo entre 15 e 20 horas de pé no total.

    • A regra de “uma semana”: de 25 a 35 horas, se fosse cumprida à risca.

    Muitas escolas chinesas também têm estudo dirigido obrigatório antes ou depois das aulas (早自习/晚自习). Se o castigo valia também nesses horários, os números seriam maiores.

  6. Datas. O ano letivo chinês começa em setembro, então os casos citados ocorreram entre setembro e novembro de 2006. A data “segunda-feira (13)” foi deduzida do “ontem” do original, publicado em 14 de novembro.

  7. Acréscimos e nomes. A referência ao “noroeste da China” não está no original. Nos nomes chineses, o sobrenome vem primeiro (Wang, Jiao). “Xiao Qiang” é um nome fictício dado pelo jornal.


Que conclusões podemos tirar, considerando as diferenças culturais e as peculiaridades da China?

Primeiro, deve ser lembrado que ter que ficar parado, em pé, é um dos castigos escolares mais tradicionais e difundidos pelo mundo. Com certeza muita gente já viu por aqui. Mas este castigo em geral consiste de manter o punido de costas para a classe, rosto de frente para a parede, sinalizando que ele(a) está temporariamente afastado de suas atividades. Dura alguns minutos, e não é repetido por vários dias. Mas na versão chinesa, há uma ostensiva mensagem de que o punido não deve se afastar de suas atividades em classe - precisa continuar anotando a matéria, e comparecendo normalmente às aulas. Isso parece sinalizar que a obrigação de estudar é permanente, e não deve cessar nem mesmo para quem está de castigo. Mas não deixa de ser humilhante, e um exemplo para os demais alunos.

Chamou-me a atenção a afirmação de que a escola não tolera castigo físico. Mas permanecer de pé por um longo tempo sempre foi um castigo físico disfarçado, pois causa dor e um desconforto bem pronunciado. Será que a escola entenda como castigo físico apenas o professor bater no aluno? Acho mais provável uma interpretação mais inserida na cultura local: a professora é imbuída de tal autoridade na China, bem como em outros países da Ásia, que tem até o direito de passar por cima dos regulamentos da escola. Não foi confirmado se a professora Wang Haixia foi advertida.

E por fim, uma questão instigante: o que a aluna quis dizer ao propor que o castigo fosse passar o semestre inteiro de pé? Estaria ela querendo zoar com a professora? Considerando o grande respeito que os professores ali desfrutam, acho pouco provável essa hipótese. Penso que a aluna quis enfatizar que estava arrependida, e de qualquer modo sabia que a professora não ia concordar com a proposição absurda.



Comentários


bottom of page